segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Caixa de costura

Eu estava no sótão de casa quando percebi que havia alguém na escada. Alguém de estatura pequena e roupa clara de tecido muito familiar.
- Chegamos vovó!
- Ei Amélie, entre e dê um beijinho na vovó. – Sorri alegremente para minha pequena.
Ouvi conversas, movimento de pessoas e malas e então fui até a sala encontrá-los. Minha casa sempre vive cheia, eu adoro a presença de meus netos. Correria, gritaria, isso é tão gostoso. Todo fim de semana faço torta de maçã, bolo de chocolate, rosquinhas, geléia de goiaba e suco do jeito que as crianças gostam. Eva era a primeira a chegar aqui com seus filhos. Elizabeth é a mais velha, tem 15 anos. Uma mocinha muito comportada e responsável, porém tímida, alguém de poucas palavras. Amélie tem 6 anos e Cecília é dois anos maior. Minhas “molecas” chegam limpas e voltam imundas e esgotadas de tanto brincar pelo gramado. O “rapazinho” era Vitório, meu cavaleiro de 9 anos amante dos animais. Sempre que chega, vai ao estábulo atrás dos cavalos e corre atrás dos patos.
- Mamãe, acho que Lúcia está atrasada.
- Minha querida filha, já viu sua irmã não se atrasar para algo?
Dizendo isso, ambas riram enquanto as lembranças voltavam à tona.

* * *

- Lúcia, o padre estará acabando a missa e nós estaremos chegando à igreja se não se apressar.
- Eva, venha aqui, preciso amarrar essa fita, odeio essas fitas mamãe. – Disse como quem iria chorar. – Sempre demoro para amarrá-las e nunca consigo.
Eva estava terminando de amarrar a fita no cabelo de sua irmã enquanto sua mãe já estava dentro do carro. As duas correram e entraram rapidamente no carro a caminho da missa.
- Nada de conversa, comportem-se e sentem-se direito. Vocês são mocinhas e têm de se comportar pois estamos na igreja. Ficou claro?
- Sim, mamãe. – Disseram ambas em um único coro.

* * *

Época de férias, bagagem maior do que o normal. Ao passar pelos quartos isso era claramente visto: brinquedos de um lado, roupas de outro, crianças pulando em cima das camas e suas mães gritando incessantemente para que parassem com a “baderna”. Eu ria dessa situação, mas não contrariava as ordens de minhas filhas, afinal são elas quem mandam. Ao olharem pela janela, escutava-se som de motor de carro. Parece que, finalmente, a atrasada chegara. Como um furacão, Gabriel, João e Francisco entraram correndo e deram um abraço, quase derrubando Laura.
- Meus lindinhos, eu já estava sentindo falta de vocês também. Lúcia, venha e me dê um abraço também minha filha.
A festa estava completa agora. Todos haviam chegado.
- Quem quer ir ao pomar com a vovó?
Um coro simultâneo de “eus” disse em alto e bom tom. Correndo pelos campos até o estábulo, lá se iam as crianças com aquele anjo de cabelos brancos e marcas do tempo estampada na pele.

A noite caiu e todos comiam a mesa. Comida feita em forno a lenha era um verdadeiro banquete dos deuses ali.
- Isso é muito bom vovó! Coloca mais frango no meu prato? – Disse Francisco de boca cheia.
- Não fale de boca cheia, é falta de educação Francisco e a vovó vai ficar brava se fizer isso novamente.
- Vó, eu quero mais arroz e polenta. – Pediu Cecília.
- Qual é a palavra mágica Cecí?
- Por favor. – Laura sorriu e colocou um pouco de comida para a neta.
Todos jantaram e foram descansar. Laura e suas filhas foram se sentar na varanda.
- Como a senhora está mamãe?
- Estou bem minha filha, olhe para mim. Não é por causa de uma doença que vou deixar me abater, de jeito nenhum, nem que o fim esteja mais próximo.
Eva abaixou a cabeça e ficou pensativa.
- Não vamos contar às crianças mãe. – Afirmou Lúcia. – Não queremos que eles saibam, são pequenos ainda.
- Nem eu quero filha, eles não precisam saber disso.
A sombra que havia atrás da porta sumiu de repente.

Na manhã seguinte, todos acordaram com o delicioso cheiro do café quentinho e o pão tirado do forno naquele mesmo momento.
- Bom dia pessoal, fiz questão de assar um pãozinho e tem café no bule. Tem leite também para quem não gostar de café. Hoje nós vamos pescar, tomar banho no riacho aqui perto, vamos até a loja do Antônio encomendar alfafa para o zorro, o cavalo negro que vocês viram ontem, vamos fazer bastante coisa hoje.
- Vó, leva a gente naquela parte de trás da caminhonete? – Perguntou Vitório.
- Sim, levo sim meu queridinhos. – Disse toda sorridente com aquele bando de gente na cozinha. – Bem, agora vou dar um jeito nessa louça enquanto vocês trocam esses pijamas e escovam os dentes. Vamos, vamos, um, dois, três, circulando. – Dizendo isso, deu tapinhas no bumbum das crianças.
- Vó, precisa de ajuda? – Interrogou Elizabeth.
- Ajude-me a secar a louça? – Laura respondeu.
- Sim, claro. – A garota pegou o pano e começou a secar copos, pratos pequenos e alguns talheres. Enquanto ajudava sua avó ficou calada, mas algo dentro de si, uma curiosidade, falava mais alto. Estavam terminando o serviço todo e Laura disse:
- Vou trocar de roupa, pegar dinheiro e vamos. Você vai?
- Daqui a pouco. – Disse um pouco desanimada.
Sua avó deu as costas a ela e a garota observava-a indo pelo corredor daquela grande casa, fazendo barulho em casa passo no chão de madeira. Ao ver que tinha sumido de vista, correu até o quarto da avó e bateu na porta.
- Entre.
- Posso fazer uma pergunta? – Disse cabisbaixa.
- Claro minha querida. Sente-se ao meu lado e pergunte o que quiser. – Laura sentou-se na cama e fez um gesto para que sua neta sentasse ao seu lado. Embora ela tivesse quase certeza do que se tratava a pergunta, continuou como quem esperava algo e se surpreenderia.
- Eu estava lendo ontem a noite enquanto a senhora, minha tia e mamãe conversavam. Vovó, a senhora está doente e não disse a ninguém? Porque não contou pelo menos para mim? Não entendo uma coisa: se está doente, porque está tão forte? Explique-me.
Esperando que sua avó ficasse brava por ela ter ouvido a conversa, usou toda sua delicadeza para com uma menina tão meiga.
- Vamos até um lugar? Quero lhe mostrar algo.
As duas saíram do quarto e logo seguiram para o sótão, onde subiram e foram direto para um baú. Ao abrir esse baú, Laura tirou uma pequena caixa de costura e uma caixa maior, ambas de madeira e entregou-as a neta.
- Abra esta maior primeiro. – Ficou observando sua neta.
- Um vestido vovó, é lindo!
- Vou lhe contar um segredo, poderia guardá-lo?
- Claro! – Disse Elizabeth, toda empolgada.
- Quando eu costurava, sua mãe e sua tia eram pequenas, então eu sempre fazia roupa pequena, mas conforme elas cresceram eu tive de aumentar o tamanho dessas roupas e esse foi o primeiro vestido que eu fiz para alguma ocasião especial.
- Ele é lindo vovó, só precisa de uma boa lavagem, mas é perfeito, é digno de princesa!
Laura olhou bem para a neta e disse:
- Tem certeza? Olhe bem para ele, repare bem.
A mocinha olhou intrigada e percebeu que haviam inúmeras falhas na costura do vestido.
- Vovó, esta costura não está boa.
- Eu sei. – Sorriu.
- Se não está bom, porque guardou-o?
- Porque eu pretendi fazer as coisas de forma diferente, preferi não me lamentar. Apenas deixei ai, guardado e fiz outros, fiz vestidos semana após semana, até que consegui fazer os melhores vestidos que pude.
- Tudo bem, o motivo para o vestido a senhora já me explicou, mas porque não disse nada a respeito da doença ainda?
Laura sorriu e passou delicadamente a mão no rosto cheio de dúvidas daquela jovem garota.
- Porque eu decidi viver dia após dia, aproveitar minha família, cada raio de sol, cada brisa da manhã e depois pensar que eu estou doente. Preferi fazer as coisas de forma diferente, preferi não me lamentar. Não pense que não estou fazendo minha parte, pois estou. Tomo meus remédios, vou regularmente ao médico, mas estou velha e não posso brincar com a minha saúde.
Elizabeth abaixou a cabeça e de repente uma lágrima, brilhante e cristalina, caiu sobre o vestido. Subitamente a garota deitou no colo de sua avó e disse:
- Vovó, a senhora não vai morrer, eu juro que não vai, eu não vou deixar.
A avó, percebendo o medo e a aflição estampados em sua neta, consolou-a:
- Minha princesinha, ninguém está dizendo que vou morrer. Eu não morrerei, tudo bem? Só estou um pouco doente e vou melhorar, assim como você melhora de uma dor de cabeça, de uma gripe. Não chores, acalme-se.
Elizabeth ergueu a cabeça e seus olhos verdes agora pareciam esmeraldas brilhantes entre gotas de orvalho da manhã. Sua avó tocou-lhe a face, a fim de secar aquelas lágrimas, beijou-lhe a testa e saiu.
- Vovó, vovó, espere!
- Sim?
- O vestido e esta caixa de costura, a senhora esqueceu de guardá-los!
Laura sorriu e disse:
- Acho que você tem trabalho, muito trabalho pela frente princesinha. Quero ele impecável até o natal. Boa sorte!

Divã

Psicose Nova-Iorquina - Capítulo VIII

O tempo passou e muito mudou em minha vida. Rita conseguiu um tratamento para largar o vício da bebida e parou de fumar temendo que seu problema se agravasse, mas nada disso mudou a opinião de Melina. As duas já não se viam frequentemente, pois a garota agora morava com sua tia, naquela mesma casa onde morou antes, ao lado da casa de Átila. Sua mãe ainda telefonava, mas as conversas eram diretas, sem demora. Átila largou de Alana e estava mais safadinho do que nunca. Ele, que já tinha um corpo muito bonito, ficava cada vez mais interessante com seu jeito audacioso.
- Átila, vai trocar de roupa logo inferno!
- Ah Melina, vai dizer que não estou sexy com essa toalha enrolada nesse corpinho gostoso?! – Disse passando a mão em seu abdômen definido.
- Eu disse para ir logo e não me teste! – Lutando contra seus pensamentos, ordenou ao amigo.
- Vem cá Mel, vem cá! – Rindo foi até a garota.
- Imbecil, se você tentar me agarrar vou chutar suas bolas. Sai daqui!
Tilanga virou as costas e, quando entrava em seu quarto, parou e mais uma vez provocou Melina.
- Agora eu vou tirar essa toalha viu, se quiser vir aqui pegar, fique a vontade gatinha.
Ela nem virou para vê-lo na porta, apenas continuou folheando a revista, mas os músculos de sua face contraíram em um sorriso malicioso.
O trabalho ia bem, já que estava na loja de CD’s e não mais no restaurante. Ela se sentia em casa escutando as músicas que gostava naquele ambiente. Com o dinheiro que ganhava, ajudava a pagar as contas de casa e sempre deixava uma quantia para a balada do fim de semana. No colégio, a incansável luta de Louise para destruí-la não fazia tanto efeito quanto antes e Melina não precisou mais beijar nenhum garoto como forma de vingança barata.
- Sabe, eu sinto como se as vida estivesse conspirando a meu favor a partir de agora. Minha mãe tomou um jeito na vida, embora eu não admita isso claramente; estou feliz com meu trabalho e posso afirmar com toda certeza e honestidade que trabalho porque gosto e não porque necessito do dinheiro. Aquela menina tosca da escola já teve o que merecia, então nem me preocupo com ela mais, mas se precisar estou sempre disposta a pisar na cabeça dela para baixo da terra.
- Acha que isso compensa?
- Talvez. Acho que se as pessoas me escutassem mais, não seria necessário agir como ajo, tratá-los como trato, enfim, ser tão agressiva e grossa quanto sou. Uma prova disso é Átila que, por mais teimoso que seja, só brinca comigo e não prossegue entende?
- Sim.
- Eu queria muito que tudo fosse diferente desde o princípio. Confesso que fiquei bem chateada com boa parte desses acontecimentos, mas consegui lidar, ignorando. Foi bem difícil, só tive algumas explosões, mas fui até o fim.
A pessoa com quem Melina conversava escutava tudo aquilo e parecia anotar em formato de tópicos cada frase dita por ela. Ao afirmar algo, balançava a cabeça concordando ou apenas expressava dúvida em sua face pouco expressiva.
- Melina, eu como psicólogo posso afirmar que seu comportamento é típico de adolescentes que estejam nesta fase ou que estão transitando para a maioridade e quanto aos problemas de sua casa, sua família, enfim, eles não ocorrem somente com você. Já tive pacientes com problemas três, quatro vezes mais graves que o seu. – Colocou a mão na boca e tossiu. – Desculpe. Eu não estou aqui para dizer o que você deve fazer, apenas posso questioná-la, instruí-la para que possa se libertar dessa psicose, desse transtorno como acha que é. Quanto à sua mãe, dê um tempo, deixe ela estar firme e forte com o tratamento e quando isso acontecer dê apoio. Ela irá pensar em tudo que fez, acredite; quanto às garotas do colégio, nem ligue. Na minha época de colégio também era zoado por causa de uma verruga na testa. – Melina inclinou seu corpo para frente discretamente e olhou a testa do homem. – Ainda bem que fiz extração a laser e deixei de ter cabelo comprido, acabando assim com o falatório a respeito do meu estilo. (Será que ele era um hippie ou algo do tipo? Como será que ele se vestia hein? Cruzes, não gosto nem de pensar). Quanto a Átila não tenho nada que dizer, pois estão bem e fico feliz por saber que se sente perfeitamente bem na loja de CD’s, isso é uma ótima atividade para você, ajudará a se acalmar, a não ficar tão estressada com tudo isso. Vamos à mesa, por favor.
O médico sentou-se de costa para a janela e Melina, de frente para ele, do outro lado da mesa.
- Analisei minhas anotações, seu avanço durante o tratamento e acho que agora é hora de você caminhar com os próprios pés. Coloque em prática toda teoria ensinada, aprendida e discutida durante nossas conversas e viva do seu jeito, seja muito feliz. Foi muito legal te conhecer e desejo melhoras a sua mãe e tudo de bom a você.
Melina sorriu e assim que ele estendeu a mão, ela cumprimentou-o.
- Obrigada por tudo doutor, pode deixar que vou ser uma boa garota, por mais que isso pareça mentira.
Dizendo isso, levantou-se e foi até a porta. Será que, a partir daquele momento o “bicho ia pegar?”


“Pois é, acho que tudo isso era coisa da minha cabeça mesmo. Bom, nada melhor do que zoar um pouco com a cara dos outros para descontrair. (Barulho de botões sendo apertados). ‘Átila, vamos sair? Hoje eu quero fazer loucuras! Beijo.’ É, pelo visto não mudei muito. Esse é meu jeito, esse é o jeito Melina de ser e foda-se quem não gostar. Tchauzinho.”

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Uma bomba às oito e catorze

Quinta-feira, oito horas e catorze minutos da manhã. Tensa manhã. Eu estava, durante aquela aula, mais irritada do que nunca. Meus pensamentos estavam martelando meu crânio maciço com tamanha força que jurava poder sentir a dor. Tudo bem, eu sabia que em algum momento ia passar ou aquele, o qual estava me irritando, haveria de se tocar. Incessantemente “bla blás” saíam de sua boca em tons graves e fortes, por mais baixos que pudessem ser. Eu não entendia o que era dito, então eram “bla blás” infernais. Minha cabeça já não era mais martelada e funcionava agora como uma panela de pressão: parecia que a qualquer momento explodiria e a pressão interna era grande, grande, grande. Eu me revirava escutando aquele som gutural saindo da boca do homem moderno, mas me revirava de pura irritação. Coça, coça, coça sem ter nenhum prurido. Talvez meu couro cabeludo já estivesse muito vermelho e meu cabelo, muito bagunçado. Não conseguia prestar atenção na aula de maneira alguma, mas tentar nunca era demais. Respondi, ou melhor, tentei responder oralmente às perguntas que a professora fazia e percebi que em meio a tanto tormento algo havia entrado em minha cabeça. Não sei. Cutuquei a garota do cabelo cacheado que sentava na minha frente e reclamei. Ela me fez algumas perguntas, observou aquele que me irritava e novamente voltou a me olhar. Explodi calmamente. Decidi mudar de lugar e arrastei a carteira, sem me levantar da cadeira. Rapidamente me ajeitei e fiquei ali, com meus pensamentos, bem na minha. O sinal que, cada dia parecia mais alto e insuportável tocou e acabou-se o tormento infernal.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Uma visita um tanto quanto inesperada

Psicose Nova-Iorquina - Capítulo VII

“Eu escutei a porta abrir e fiquei surpresa com a visita.”
- Oi.
- O que está fazendo aqui?
- Não iria deixar minha amiga na mão.
- Ninguém te avisou Átila, como você sabia da minha situação se não estávamos nem se vendo?
- Não interessa Mel, mas não vou deixar você sozinha enfrentando isso, não mesmo. Se precisar é só falar. Eu estou de carro, se quiser busco roupas ou qualquer outra coisa que precisar.
- Nesse momento não preciso de nada, mas obrigada.
Melina puxou uma cadeira e colocou perto dela. Átila sentou-se e ela contou desde a história do programa envolvendo o advogado até o suporte que ele estava dando naquele momento. Sua mãe começou a se mexer na cama. Levantou-se e foi a seu lado.
- O que eu estou fazendo aqui?
- Você quase vomitou o próprio fígado. Como tenho uma mísera compaixão por você, cuidei para que fosse internada. Sabe aquele advogado para quem deu? Agradeça a ele, pois está nos ajudando muito.
Melina saiu do quarto e bateu a porta. Átila levantou-se e foi até Rita.
- Ela está muito nervosa, de verdade. Por favor, desculpe-a.
Ela acenou com a cabeça e voltou a dormir. Parece que não se importou muito. Átila encontrou a amiga sentada na calçada, com a cabeça entre as pernas. Ele chegou e sentou ao seu lado, puxando seu corpo para cima. Abraçou-a.
- Chore Melina, você não é mulher maravilha, não pode continuar calada, aguentando tudo ou não.
Chorou silenciosamente e suas lágrimas transformavam seus olhos em duas pérolas negras, brilhantes.


***

Passaram-se alguns dias e a mãe de Melina teve alta. Ela fez questão de quebrar todas as garrafas de bebida de sua casa, jogou fora os maços de cigarro, ajeitou aquele inferno. Aspirou a casa, jogou os lençóis fedidos fora, abriu as janelas e deixou o sol e o vento fresco entrar. O ódio que sentia ainda não havia sido diluído e estava fazendo aquilo por conta própria, sabendo ou não se Rita queria.
- Não sei qual a finalidade disso tudo, filha.
- Não me chame de filha e cale a boca.
- Você deve me respeitar menina!
- Se eu pudesse teria dado um tapa nessa sua cara. Você é uma ingrata. Aposto que já voltou a dar. Tanto esforço para nada.
- Não me tire do sério Melina, eu sou sua mãe.
- Não, você é uma vadia! Mãe de verdade não faz o que você fez a vida toda.
Dizendo isso foi para seu quarto, enfiou umas roupas em uma pequena mala, pegou sua mochila, algumas outras coisas e saiu. A vizinhança ouvia os gritos.
- Onde você vai?
- Para qualquer lugar longe de você e deste inferno. Foda-se!
Melina acenou para o primeiro táxi que apareceu em seu caminho e foi para a casa de Átila. O amigo abriu a porta assim que ela chegou, olhou-a espantado. Ela começou a falar antes mesmo dele respirar:
- Preciso passar alguns dias aqui. Se precisar, faço hora extra no restaurante para pagar comida, água, luz, telefone, seja o que for. Ajudo a limpar casa, faço compras, qualquer coisa.
- Massagem em mim?
- Viado.
Só Tilanga mesmo para fazê-la rir. Ela entrou e instalou-se na casa dele.

A droga mais potente que qualquer outra

Psicose Nova-Iorquina - Capítulo VI

Talvez eu seja facilmente notada, notada por esse jeito não social, apenas sociável. Talvez ser tão “fechada”, tão calada possa me fazer mal. Minha vida está uma droga e sinto que aos poucos vou perdendo uma parte de mim. Primeiro brigo com Átila e agora minha mãe cai doente na cama. Estou sem meu melhor amigo, minha mãe e embora possa contar com Lavínia e Verônica, a vergonha sempre me deixa sozinha. Minha mãe bebe muito e por isso ela acabou desenvolvendo problemas sérios que necessitavam de internação, tratamento e medicamentos. Não temos grandes condições e apesar do quadro ser inicial, não possuimos muito dinheiro ou qualquer outro tipo de recurso para tratá-la. Estava utilizando a lista telefônica e lembrei de um advogado que minha mãe contratou a muito tempo atrás. Contratou só porque deu para ele. Biscate, falo isso porque sei o motivo dela ser tão afastada da minha vida, de sair a maior parte do tempo, de esquecer que me colocou no mundo e agora está ai, morrendo. Ela deveria me agradecer, pois poderia muito bem deixa-la morrer. Realmente ainda resta algo bom em mim. Liguei para o advogado:
- Doutor Daniel Liroff, sou Melina, filha de Rita.
- Rita...?
- Rita Vedova.
- Ah sim, em que posso ajudar?
- Poderia falar com o senhor pessoalmente em seu escritório?
- Posso atende-la as duas e meia.
- Estarei ai. Até breve.
Minha mãe estava no hospital em observação. Ela passou mal e foi levada. Não sabia por quanto tempo ficaria lá ou se seria internada de uma vez por todas. Sai de casa duas horas e passei no restaurante para falar com meu chefe. Liberou-me, mas tive um pequeno desconto no salário. Isso era o menor dos problemas. Cheguei no escritório, um lugar muito bem decorado, simples mas imponente. Um ambiente sério, silencioso. Esse silêncio causava até desconforto, confesso.
- Sente-se.
- Obrigada.
- O que a traz aqui, senhorita Verona?
- Melina, por favor. Bem, minha mãe está com problemas de saúde e como sou menor não posso fazer muito por ela. O médico disse que ela precisa de internação, precisa de medicamentos e tudo isso deveria ser feito por alguém que respondesse, legalmente, por mim. Não tenho ninguém, então estou pedindo ajuda ao senhor.
- Olha, pode demorar para conseguir algo realmente eficaz, mas posso assinar papéis para internação. Dado este primeiro passo, veremos a situação e faremos o que for preciso. Claro que a colocarei a par de tudo, quanto a isso não se preocupe.
- E quanto essa ajuda custará?
- Falaremos disso depois.
- Desde já agradeço.
Apertei a mão dele e sai. Fui para o hospital e o médico confirmou a necessidade da internação. Falei com ele e fui passar um tempo com ela. Quando cheguei no quarto, ela estava deitada em uma maca, pálida. Vê-la naquele estado partia meu coração, embora ela não fosse a mãe que gostaria de ter e nunca seria. Quando foi mãe? Ela estava sedada e eu sentei em uma cadeira, olhando ela, pensando nessa droga de vida. Apoiei meus cotovelos nos braços da cadeira e segurei minha cabeça, de olhos fechados, querendo apenas respirar aquele cheio de hospital e esvaziar minha cabeça, sem pensar em absolutamente nada. Eu escutei a porta abrir e fiquei surpresa com a visita.

domingo, 24 de outubro de 2010

Quinze minutos com meus pensamentos

Eu sentia as consequências das minhas aflições em meu próprio corpo. Eu me sentia mal, se pudesse estaria rastejando, pois minha cabeça pesava, pesava demais. Eu poderia ter posto tudo a perder, ser grosso, transformar tudo em nada de um minuto para outro, mas decidi parar e prestar atenção em meus pensamentos. Eu estava sentando numa mesa larga, de madeira escura, com as mãos apoiando a cabeça. Fechei os olhos, respirei fundo e deixei que meus pensamentos vagassem livremente pelo espaço daquele quarto. Parecia que um filme passava na minha cabeça e eu estava repensando tudo aquilo que vivi, tudo aquilo que senti, tudo aquilo que provou, que me colocou e coloca em teste o tempo todo. Paciência, desespero, otimismo, talvez. Era como se eu tirasse-os e colocasse-nos em uma “penseira”, observando os próprios pensamentos boiarem naquela água prata e límpida. Eu vi que não valia a pena me desgastar por tão pouco e as vezes acabava fazendo tudo do jeito inverso. Eu inspirei profundamente, soltei o ar, inspirei e soltei vagarosamente e o sino começou a badalar. Eu tentava contar quantas badaladas aquele sino dava, mas perdia a conta facilmente. Aquele barulho tão distante parecia tão suave, era como se estivesse deitado em nuvens, voando, leve. Parece até que meus pensamentos adquiriam a forma humana e paravam de me rodear cada vez que o sino badalava. Depois acabou e o silêncio tomou conta de mim. Eu deveria fazer esta experiência mais vezes, pois é extremamente prazerosa e relaxante. Tirei meus sapatos e minhas meias, coloquei meus pés sobre a mesa, tirei meu óculos, cocei levemente meus olhos e inclinei para trás. Não, eu não iria dormir, mas queria aquela paz por quinze minutos, só isso. Eu pensava na minha vida, que boa ou não, era a minha vida. Óbvio. Como era óbvio o ser humano perceber que nossa vida possui fases, cujas não são as melhores sempre e o que vale é tentar se acalmar, é tentar relaxar, para não ter dores como eu tinha. Meus ombros pesavam tanto quanto minha cabeça pesou no começo. Agora não mais. Um cheiro entrava pela minha narina e eu ri. Era o odor que meus pés suados exalavam. Eu simplesmente ri daquilo e vi que estava na hora de tomar banho. Coloquei novamente meus pés no chão e fui a caminho do banho, deixar com que a água escorresse da cabeça aos pés, me lavasse de corpo e alma.

Um medo repentino

Psicose Nova-Iorquina - Capítulo V

- Melina, você é descontrolada? Você precisa de remédios, sinceramente.
- Átila, você acha que eu ia deixar barato? Não mandei aquela piranha mexer comigo, ela mereceu apenas.
Melina estava sentada na cadeira com os pés sobre a cama de Átila, onde ele estava deitado escutando a amiga desajuizada contar o que havia aprontado.
- Tudo bem que foi meio sem controle, mas eu gostei. Essa é minha garota!
- Tilanga, Tilanga, sou uma caixinha de surpresas.
Naquela tarde, os dois estavam de folga.
- Tilanga, vamos tomar café? Eu quero sair, seu quarto está quente, abafado e fedido, como sempre foi.
- E você sempre amorosa, doce, cheia de elogios.
Átila sentou na cama, colocou o tênis e foi se levantando. Saíram para a rua e foram até o café, onde Melina sempre ia. A garçonete veio, anotou os pedidos e eles continuaram conversando, rindo, se divertindo em qualquer lugar a qualquer hora. Melina foi ao banheiro e uma moça chegou na mesa em que Átila estava e entregou um papel com um número de telefone e um beijo. A garota saiu.
Louise 555-6352”
Ao perceber que Melina voltava, não conseguiu esconder o bilhete e a garota viu.
- Agora minha inimiga quer me atacar? Truque bem barato.
- Mel, até que ela é bonitinha. Com um charme eu pego ela fácil.
Melina olhou Átila com um olhar mortal até que a garçonete chegou e colocou os cafés e uns biscoitinhos na mesa.
- Filho da puta. Alana não te merecia.
- É brincadeirinha meu amor! HAHAHA
Ela jogou um biscoito nele e os dois começaram a rir. Aquela tarde foi muito agradável, mesmo com esse rastro indesejado de inimigo no território. Andaram pela Dacown Street, correram pelo parque e no fim da tarde foram para casa.
No dia seguinte, ela foi cedo para o colégio e pela tarde para o restaurante. Átila entregou rapidamente as correspondências no restaurante e disse apenas “estou atrasado, depois do trabalho eu passo aqui te pegar”. Mel entendeu que não daria para conversar naquela hora e acenou para ele. Ao final do dia, o chefe teve uma conversa com os funcionários, algo breve que acabou resultando em atraso. Quando Melina saiu do restaurante e viu que Átila estava conversando com uma moça, parou de falar:
- Desculpa pelo atraso, mas eu estav...
Parou diante daquela cena. Louise estava praticamente colada à Átila.
- Ok, Átila.
Começou a andar rápido enquanto Átila se despedia da garota e ia atrás dela.
- Ei, porque não me esperou?
- Acho que você estava suficientemente ocupado.
- Melina, que isso agora? Vai ficar com ciúmes?
- Não é ciúmes seu imbecil, mas você sabe o quanto eu odeio aquela garota. As vezes eu penso que você tem prazer em me deixar louca, se já não for.
- Para Melina!
- Se liga Átila!
- Porque não posso conversar com as garotas? Só porque você não gosta delas?
- A questão não é essa. Você apóia minhas atitudes com relação a essa garota e depois fica ai se esfregando nela? Belo amigo você. Daqui uns dias vai falar tudo o que penso a respeito, o que pretendo fazer. Não estou reconhecendo mais o Átila de antes, que tem prazer em humilhar quem merece.
- Para com essa psicose Melina! Para!
- Ou ela ou eu.
Saiu e se enfiou pelas ruas. Ao chegar em casa, sua mãe estava ausente como sempre foi e a garota se sentia mais sozinha do que nunca naquele momento. Bateu a porta e pegou o porta retrato com a foto dela e de sua mãe.
- Droga de falsidade!
Jogou na parede. Melina nunca tinha feito algo por aquele amigo. Sim, lágrimas molhavam seu rosto. Talvez o medo fosse maior que o ódio naquele momento.