segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Caixa de costura

Eu estava no sótão de casa quando percebi que havia alguém na escada. Alguém de estatura pequena e roupa clara de tecido muito familiar.
- Chegamos vovó!
- Ei Amélie, entre e dê um beijinho na vovó. – Sorri alegremente para minha pequena.
Ouvi conversas, movimento de pessoas e malas e então fui até a sala encontrá-los. Minha casa sempre vive cheia, eu adoro a presença de meus netos. Correria, gritaria, isso é tão gostoso. Todo fim de semana faço torta de maçã, bolo de chocolate, rosquinhas, geléia de goiaba e suco do jeito que as crianças gostam. Eva era a primeira a chegar aqui com seus filhos. Elizabeth é a mais velha, tem 15 anos. Uma mocinha muito comportada e responsável, porém tímida, alguém de poucas palavras. Amélie tem 6 anos e Cecília é dois anos maior. Minhas “molecas” chegam limpas e voltam imundas e esgotadas de tanto brincar pelo gramado. O “rapazinho” era Vitório, meu cavaleiro de 9 anos amante dos animais. Sempre que chega, vai ao estábulo atrás dos cavalos e corre atrás dos patos.
- Mamãe, acho que Lúcia está atrasada.
- Minha querida filha, já viu sua irmã não se atrasar para algo?
Dizendo isso, ambas riram enquanto as lembranças voltavam à tona.

* * *

- Lúcia, o padre estará acabando a missa e nós estaremos chegando à igreja se não se apressar.
- Eva, venha aqui, preciso amarrar essa fita, odeio essas fitas mamãe. – Disse como quem iria chorar. – Sempre demoro para amarrá-las e nunca consigo.
Eva estava terminando de amarrar a fita no cabelo de sua irmã enquanto sua mãe já estava dentro do carro. As duas correram e entraram rapidamente no carro a caminho da missa.
- Nada de conversa, comportem-se e sentem-se direito. Vocês são mocinhas e têm de se comportar pois estamos na igreja. Ficou claro?
- Sim, mamãe. – Disseram ambas em um único coro.

* * *

Época de férias, bagagem maior do que o normal. Ao passar pelos quartos isso era claramente visto: brinquedos de um lado, roupas de outro, crianças pulando em cima das camas e suas mães gritando incessantemente para que parassem com a “baderna”. Eu ria dessa situação, mas não contrariava as ordens de minhas filhas, afinal são elas quem mandam. Ao olharem pela janela, escutava-se som de motor de carro. Parece que, finalmente, a atrasada chegara. Como um furacão, Gabriel, João e Francisco entraram correndo e deram um abraço, quase derrubando Laura.
- Meus lindinhos, eu já estava sentindo falta de vocês também. Lúcia, venha e me dê um abraço também minha filha.
A festa estava completa agora. Todos haviam chegado.
- Quem quer ir ao pomar com a vovó?
Um coro simultâneo de “eus” disse em alto e bom tom. Correndo pelos campos até o estábulo, lá se iam as crianças com aquele anjo de cabelos brancos e marcas do tempo estampada na pele.

A noite caiu e todos comiam a mesa. Comida feita em forno a lenha era um verdadeiro banquete dos deuses ali.
- Isso é muito bom vovó! Coloca mais frango no meu prato? – Disse Francisco de boca cheia.
- Não fale de boca cheia, é falta de educação Francisco e a vovó vai ficar brava se fizer isso novamente.
- Vó, eu quero mais arroz e polenta. – Pediu Cecília.
- Qual é a palavra mágica Cecí?
- Por favor. – Laura sorriu e colocou um pouco de comida para a neta.
Todos jantaram e foram descansar. Laura e suas filhas foram se sentar na varanda.
- Como a senhora está mamãe?
- Estou bem minha filha, olhe para mim. Não é por causa de uma doença que vou deixar me abater, de jeito nenhum, nem que o fim esteja mais próximo.
Eva abaixou a cabeça e ficou pensativa.
- Não vamos contar às crianças mãe. – Afirmou Lúcia. – Não queremos que eles saibam, são pequenos ainda.
- Nem eu quero filha, eles não precisam saber disso.
A sombra que havia atrás da porta sumiu de repente.

Na manhã seguinte, todos acordaram com o delicioso cheiro do café quentinho e o pão tirado do forno naquele mesmo momento.
- Bom dia pessoal, fiz questão de assar um pãozinho e tem café no bule. Tem leite também para quem não gostar de café. Hoje nós vamos pescar, tomar banho no riacho aqui perto, vamos até a loja do Antônio encomendar alfafa para o zorro, o cavalo negro que vocês viram ontem, vamos fazer bastante coisa hoje.
- Vó, leva a gente naquela parte de trás da caminhonete? – Perguntou Vitório.
- Sim, levo sim meu queridinhos. – Disse toda sorridente com aquele bando de gente na cozinha. – Bem, agora vou dar um jeito nessa louça enquanto vocês trocam esses pijamas e escovam os dentes. Vamos, vamos, um, dois, três, circulando. – Dizendo isso, deu tapinhas no bumbum das crianças.
- Vó, precisa de ajuda? – Interrogou Elizabeth.
- Ajude-me a secar a louça? – Laura respondeu.
- Sim, claro. – A garota pegou o pano e começou a secar copos, pratos pequenos e alguns talheres. Enquanto ajudava sua avó ficou calada, mas algo dentro de si, uma curiosidade, falava mais alto. Estavam terminando o serviço todo e Laura disse:
- Vou trocar de roupa, pegar dinheiro e vamos. Você vai?
- Daqui a pouco. – Disse um pouco desanimada.
Sua avó deu as costas a ela e a garota observava-a indo pelo corredor daquela grande casa, fazendo barulho em casa passo no chão de madeira. Ao ver que tinha sumido de vista, correu até o quarto da avó e bateu na porta.
- Entre.
- Posso fazer uma pergunta? – Disse cabisbaixa.
- Claro minha querida. Sente-se ao meu lado e pergunte o que quiser. – Laura sentou-se na cama e fez um gesto para que sua neta sentasse ao seu lado. Embora ela tivesse quase certeza do que se tratava a pergunta, continuou como quem esperava algo e se surpreenderia.
- Eu estava lendo ontem a noite enquanto a senhora, minha tia e mamãe conversavam. Vovó, a senhora está doente e não disse a ninguém? Porque não contou pelo menos para mim? Não entendo uma coisa: se está doente, porque está tão forte? Explique-me.
Esperando que sua avó ficasse brava por ela ter ouvido a conversa, usou toda sua delicadeza para com uma menina tão meiga.
- Vamos até um lugar? Quero lhe mostrar algo.
As duas saíram do quarto e logo seguiram para o sótão, onde subiram e foram direto para um baú. Ao abrir esse baú, Laura tirou uma pequena caixa de costura e uma caixa maior, ambas de madeira e entregou-as a neta.
- Abra esta maior primeiro. – Ficou observando sua neta.
- Um vestido vovó, é lindo!
- Vou lhe contar um segredo, poderia guardá-lo?
- Claro! – Disse Elizabeth, toda empolgada.
- Quando eu costurava, sua mãe e sua tia eram pequenas, então eu sempre fazia roupa pequena, mas conforme elas cresceram eu tive de aumentar o tamanho dessas roupas e esse foi o primeiro vestido que eu fiz para alguma ocasião especial.
- Ele é lindo vovó, só precisa de uma boa lavagem, mas é perfeito, é digno de princesa!
Laura olhou bem para a neta e disse:
- Tem certeza? Olhe bem para ele, repare bem.
A mocinha olhou intrigada e percebeu que haviam inúmeras falhas na costura do vestido.
- Vovó, esta costura não está boa.
- Eu sei. – Sorriu.
- Se não está bom, porque guardou-o?
- Porque eu pretendi fazer as coisas de forma diferente, preferi não me lamentar. Apenas deixei ai, guardado e fiz outros, fiz vestidos semana após semana, até que consegui fazer os melhores vestidos que pude.
- Tudo bem, o motivo para o vestido a senhora já me explicou, mas porque não disse nada a respeito da doença ainda?
Laura sorriu e passou delicadamente a mão no rosto cheio de dúvidas daquela jovem garota.
- Porque eu decidi viver dia após dia, aproveitar minha família, cada raio de sol, cada brisa da manhã e depois pensar que eu estou doente. Preferi fazer as coisas de forma diferente, preferi não me lamentar. Não pense que não estou fazendo minha parte, pois estou. Tomo meus remédios, vou regularmente ao médico, mas estou velha e não posso brincar com a minha saúde.
Elizabeth abaixou a cabeça e de repente uma lágrima, brilhante e cristalina, caiu sobre o vestido. Subitamente a garota deitou no colo de sua avó e disse:
- Vovó, a senhora não vai morrer, eu juro que não vai, eu não vou deixar.
A avó, percebendo o medo e a aflição estampados em sua neta, consolou-a:
- Minha princesinha, ninguém está dizendo que vou morrer. Eu não morrerei, tudo bem? Só estou um pouco doente e vou melhorar, assim como você melhora de uma dor de cabeça, de uma gripe. Não chores, acalme-se.
Elizabeth ergueu a cabeça e seus olhos verdes agora pareciam esmeraldas brilhantes entre gotas de orvalho da manhã. Sua avó tocou-lhe a face, a fim de secar aquelas lágrimas, beijou-lhe a testa e saiu.
- Vovó, vovó, espere!
- Sim?
- O vestido e esta caixa de costura, a senhora esqueceu de guardá-los!
Laura sorriu e disse:
- Acho que você tem trabalho, muito trabalho pela frente princesinha. Quero ele impecável até o natal. Boa sorte!

1 comentários:

joninel disse...

nice to know your blog ;)

Postar um comentário